Misoginia e sexismo no discurso político: Donald Trump, Janusz Korwin-Mikke e Rui Rio

Misoginia e sexismo no discurso político: Donald Trump, Janusz Korwin-Mikke e Rui Rio

 

A intolerância relativamente às mulheres e a misoginia manifestam-se na esfera pública, e estão cada vez mais presentes nos discursos políticos.  

O crescimento de discursos políticos assumidamente misóginos e sexistas, através dos quais as disparidades e discriminações são perpetuadas, constituem um entrave e um retrocesso na afirmação dos direitos das mulheres.

 


“Ao todo são 26 mil casos de assédio sexual não reportados e apenas 258 condenações. O que é que estes génios estavam à espera quando decidiram pôr homens e mulheres a trabalhar juntos?”  

Donald Trump sobre sobre a violência sexual entre militares.

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O discurso político sexista e misógino não é um exclusivo de Donald Trump, Presidente dos EUA.

Na passada quarta-feira, um eurodeputado polaco defendeu que que mulheres devem ganhar menos porque são “mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes”.

Rui Rio afirmou recentemente que mais mulheres nos conselhos de administração das empresas “é um luxo saudável que as empresas não podem ter nesta fase”.

O crescimento de discursos políticos assumidamente misóginos e sexistas, através dos quais as disparidades e discriminações são perpetuadas, constituem um entrave e um retrocesso na afirmação dos direitos das mulheres.

De acordo com o Fórum Económico Mundial a igualdade de género nos salários e oportunidades de emprego só será atingida daqui a 170 anos, em 2186

Até lá, é necessário reafirmar os direitos das mulheres na participação económica e no mercado de trabalho, através da promoção de políticas de paridade, e de um melhor aproveitamento de qualificações e competências das mulheres.


 O caso mais recente de um discurso político sexista e misógino aconteceu na passada quarta-feira no Parlamento Europeu.

 

O eurodeputado polaco, Janusz Korwin-Mikke, defendeu que as mulheres devem ganhar menos do que os homens porque são “mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes”.

Os comentários Korwin-Mikke surgiram pós a intervenção da eurodeputada espanhola do PSOE Iratxe García, que pedia medidas para a redução das disparidades salariais entre homens e mulheres na União Europeia.

“É claro que as mulheres devem ganhar menos do que os homens. Porque são mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes. E, portanto, têm de ganham menos.”

As mulheres na União Europeia ganham em média menos 16,7% do que os homens. Em Portugal a diferença salarial é de 14,9%.

As disparidades salariais entre homens e mulheres estão a diminuir tão lentamente que serão necessários quase 70 anos para eliminar as disparidades salariais entre sexos na União Europeia.

Ao ritmo atual, as disparidades salariais entre homens e mulheres estão a diminuir tão lentamente que até 2086 as mulheres não auferirão o mesmo que os homens.

 


Rui Rio afirmou recentemente que mais mulheres nos conselhos de administração das empresas “é um luxo saudável que as empresas não podem ter nesta fase”.

No âmbito da discussão da nova proposta de lei da paridade, Rui Rio, ex-presidente da Câmara do Porto, considerou um “luxo saudável” a obrigatoriedade de integrar mulheres nos conselhos de administração das empresas cotadas em bolsa.

As declarações de Rui Rio, foram feita no V Fórum Empresarial do Algarve que decorreu de 17 a 19 de fevereiro subordinado ao tema “O futuro do País passa pelo crescimento da economia”.

 

“Peço desculpa às senhoras, que me merecem o maior respeito, mas a obrigação de ter mais senhoras ou mesmo mais homens é um luxo saudável que as empresas não podem ter nesta fase.”

 

De acordo com os resultados dos Censos 2011, no total da população residente em Portugal há cerca de 12% (1 244 742 indivíduos) com curso superior. A maioria são mulheres, 61%.

No entanto, as mulheres continuam sub-representadas nos cargos de decisão e nos conselhos de administração apesar de representarem 61% das pessoas com curso superior em Portugal.

De acordo com o último relatório da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), em 2015 as mulheres representavam 53,6% das inscrições no Ensino Superior, e 59,3% dos diplomados em Portugal. 

Em 2015 as mulheres representavam 55% dos mestrados, e 63% do total de doutoramentos realizados e reconhecidos por universidades  portuguesas.  

Uma vez que as mulheres representam mais de metade da população portuguesa e mais de metade da população com qualificação académica de nível superior, consideramos que o único luxo é perpetuar as disparidades e as discriminações enraizadas em estereótipos de género.

Não há razão válida para as mulheres continuarem afastadas dos processos de tomada de decisão e de liderança das grande empresas. Sendo que o papel da mulher deve ser equacionado no debate e nos desafios do crescimento da economia e do futuro do País.


 

Os ataques contra os direitos das mulheres estão a aumentar.

A intolerância relativamente às mulheres e a misoginia manifestam-se na esfera pública, e estão cada vez mais presentes nos discursos políticos.  

 

A discriminação e a  intolerância encontra-se enraizada em estereótipos e práticas discriminatórias, e ganham cada vez mais eco nos discursos políticos, e constituem um retrocesso na afirmação dos direitos das mulheres enquanto condição essencial de desenvolvimento social e económico.

O crescimento de discursos políticos misóginos e sexistas, constituem um retrocesso na afirmação dos direitos da mulher enquanto condição essencial de desenvolvimento social e económico.

As disparidades salariais entre homens e mulheres, as desigualdades no acesso ao mercado de trabalho e a participação equilibrada de homens e mulheres em cargos de decisão, são a consequência prática e visível das desigualdades e discriminação da mulher.

No próximo dia 8 de março assinala-se o Dia internacional da Mulher, continuamos a lutar e a destacar os enormes desafios que as mulheres continuam a enfrentar para assegurar a igualdade no acesso e participação no mercado de trabalho.

 

O direito ao trabalho é condição essencial na igualdade de direitos, independência económica e na realização profissional, pessoal e social das mulheres.  É essencial na construção de uma sociedade mais justa, paritária e desenvolvida.   

por Susana Pereira