“… os estágios estão de facto a substituir os empregos”

Emilie Turunen e o desemprego entre os jovens: uma mensagem da sociedade a dizer “não precisamos de ti”

  • “… os estágios estão de facto a substituir os empregos”
  • “Claro que é necessário reduzir os défices públicos, a questão é saber com que rapidez e através de que meios”
  • A crise económica atinge profundamente os jovens e o desemprego entre as camadas mais novas da população em idade activa é um problema extremamente grave em muitos países europeus. A taxa de desemprego entre os jovens é duas vezes superior à taxa média de desemprego. No dia 5 de Julho, a eurodeputada dinamarquesa Emilie Turunen vai apresentar ao plenário o seu relatório sobre a matéria, que contém propostas específicas de promoção do acesso dos jovens ao mercado de trabalho.


    Por que é que a taxa de desemprego entre os jovens é tão elevada? Quais são as barreiras com que os jovens se confrontam no actual período de crise?

    ET: Sabemos de crises anteriores que os jovens são mais afectados porque são recentes no mercado de trabalho, o que significa que são os últimos a ser contratados e, em muitos casos, os primeiros a ser despedidos. Sabemos que muitos jovens, sobretudo na Europa do Sul, têm contratos de curta duração, o que faz com que seja mais fácil despedi-los e prescindir dos seus serviços durante a crise. Por outro lado, se as empresas não contratarem novos empregados por causa da crise, os recém-licenciados não têm onde trabalhar. Assistimos a um fenómeno idêntico durante a década de 1980, quando praticamente uma geração inteira ficou no desemprego. Tenho receio de que estejamos a repetir o mesmo erro. Todos os empregadores dizem que é difícil contratar jovens porque não têm experiência. Os empregadores querem pessoas que estejam aptas a trabalhar desde o início. Essa á uma das barreiras que temos de ultrapassar.


    Muitos jovens acabam a fazer estágios extremamente mal remunerados e com pouca protecção social. Estarão os estágios a substituir os empregos?

    ET: É um facto! O número de estágios aumentou muito em países como França e Alemanha, enquanto, no mesmo período, o número de empregos diminuiu. É um bom indicador de que os estágios estão de facto a substituir os empregos e não são poucos, são milhões. É fundamental garantir que os estágios têm um carácter pedagógico e não substituem postos de trabalho. No relatório apelamos a uma “Carta Europeia da Qualidade dos Estágios”. Deveria ser celebrado um contrato com a instituição de ensino que garantisse que os estágios são efectuados durante os estudos e não depois de os mesmos terem terminado, não tenham uma duração superior a seis meses e não substituam os postos de trabalho. O texto apresenta algumas soluções sobre o conteúdo dessa Carta.


    Quais poderão ser os efeitos a longo prazo do desemprego entre os jovens, para os próprios jovens e para a sociedade em geral?

    ET: Não podemos subestimar os efeitos do desemprego nas pessoas. É como receber uma mensagem da sociedade a dizer: “não precisamos de ti”. Li diversos estudos de elevada qualidade sobre este assunto e um deles compara a geração de jovens dos anos 80 com a actual geração e concluiu que o desemprego se transformou num mal interior, ou seja, as pessoas não culpam os governos nem a sociedade pela não criação de empregos, culpam-se a si próprias. Começam a questionar-se: “serei suficientemente competente? Nesse sentido, a crise transforma-se numa crise individual e não numa crise colectiva. Trata-se de um enorme desafio para a sociedade. É extraordinariamente dispendioso ter tantas pessoas desempregadas. Além disso é um desperdício de recursos e capital humanos, de competências e das pessoas que deverão construir as nossas sociedades no futuro. Nesse sentido, penso que estamos a colocar as nossas economias em risco por não estarmos a fazer o suficiente nesta matéria.


    Com os actuais cortes orçamentais em muitos Estados-Membros, será realista esperar que os governos gastem mais com políticas da juventude?

    ET: Infelizmente, não é isso que vejo quando analiso as decisões dos governos. A visão do nosso grupo sobre a gestão da crise ainda não é a visão prevalecente na Europa. De um modo geral, os Estados-Membros escolheram o modelo alemão de cortes orçamentais, o que na minha opinião irá piorar a situação. Vamos entrar em recessão, o desemprego vai aumentar e vamos aniquilar o ligeiro crescimento que estava a ter início. Claro que é necessário reduzir os défices públicos, a questão é saber com que rapidez e através de que meios.


    Quais são os dois principais instrumentos de que a UE dispõe para ajudar os jovens?

    ET: Por um lado, a “Carta Europeia da Qualidade dos Estágios”, que deve garantir que, se for requerida experiência prática durante o percurso académico, a mesma deve respeitar determinadas condições. Não existe qualquer instrumento de regulamentação dos estágios. Em segundo lugar, sugerimos a introdução de uma Garantia Europeia da Juventude que assegure a todos os jovens da UE o direito a receber uma oferta de emprego, um estágio, formação profissional suplementar ou combinação de trabalho e formação profissional após um período máximo de 4 meses de desemprego.

    in http://www.europarl.europa.eu/news/public/focus_page/008-76988-176-06-26-901-20100625FCS76850-25-06-2010-2010/default_p001c002_pt.htm